A Jornada do Herói



O Monomito (ou Jornada do Herói) é a descrição de um ciclo padrão encontrado em narrativas das mais diversas culturas e épocas, teoria explorada pelo antropólogo Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces.

Basicamente, são 5 os estágios da Jornada do Herói (algumas histórias podem conter todos os estágios, apenas alguns ou se concentrar em um ou dois deles):
 


1. O Herói, no mundo comum, recebe um chamado para adentrar um mundo de poderes e eventos sobrenaturais
(Inicialmente, Freddy tem visões onde centenas de cães imploram por sua ajuda, porque ele seria o lendário cãozinho esperado por todos, aquele que deverá salvar da morte a Árvore da Sorte. Mais tarde, uma centena der cães reais precisam que ele se torne de verdade o cãozinho lendário e ele finalmente aceita seu destino.)

2. Se o Herói aceita o chamado, ele precisa passar por testes ou realizar tarefas, sozinho ou com alguma ajuda. No auge de sua jornada, ele  precisa sobreviver um desafio perigoso, frequentemente com a ajuda conseguida ao longo da jornada (Freddy em sua jornada conta com a ajuda de seu fiel escudeiro Dach e do amigo Dom Coro, entre outros que cruzam seu caminho e o ajudam a realizar diversas tarefas, como libertar centenas de cães aprisionados em um canil, atravessar a Floresta da Morte e enfrentar uma forte tempestade de areia em um deserto. No auge de sua jornada, Freddy precisa encaixar a Pedra Protetora na Árvore da Sorte, Pedra que lhe foi dada pelo São-bernardo ancião Bernardo.)

3. Se o Herói sobrevive, ele conquista um grande troféu, benção ou prêmio (Freddy sobrevive e a Árvore da Sorte está salva).

4. Então, ele deve decidir se retorna ao mundo comum. Se decide retornar, o Herói enfrenta novos desafios no caminho de volta (Freddy retorna para sua dona Ai sem problemas).

5. Se o Herói é bem sucedido em seu retorno, o prêmio deve ser usado para o bem comum (com o ato heroico de Freddy, a Humanidade e a Natureza foram salvas; os corações humanos voltaram a se conectar com todos os seres vivos, principalmente com os cães).


A JORNADA DE FREDDY, O CÃOZINHO LENDÁRIO
e de Corocorone, o vilão redimido

Por Gisele

Dom Coro
Dom Coro

Jornada de Freddy
Jornada de Dom Coro
Monomito (Jornada do Herói segundo Joseph Campbell)
 

A PARTIDA
 

1. O chamado da aventura

Um problema pode surgir diante do Herói. Ai, a dona de Freddy, começa a agir de modo estranho; mesmo com seu querido Freddy por perto, ela está infeliz, e às vezes até mesmo se esquece do cãozinho; Panther, o amado "papai" criminoso (ladrão de jóias) de Corocorone/Dom Coro (Buldogue), além de estar desprezando seu cão, é ferido à bala pela polícia; Panther não pode procurar ajuda médica e se esconde em um ônibus abandonado. Dom Coro fica arrasado.

Ou a aventura começa com um simples erro, (pode-se adiantar o início da jornada de Freddy, se considerarmos que começou depois dele entrar por engano em um ônibus pensando que sua dona Ai estava dentro) ou ainda, ele é enviado para longe por um agente benigno ou maligno. Uma neblina escura surge e vai transformando os corações dos homens, desconectando-os dos corações dos cães; Freddy é expulso de casa pela própria Ai e sua mãe, que nem mesmo o reconhecem mais.

Seja o que for, revela-se ao Herói um mundo insuspeito e faz com que ele entre numa relação com forças que não são plenamente compreendidas. O chamado à aventura geralmente acontece através de um arauto e este (humano ou animal) costuma ser sombrio, repugnante ou aterrorizador. O arauto marca o despertar do eu. Os cenários típicos onde acontece o chamado são a floresta negra, a grande árvore, a fonte murmurante e a repugnante e substimada aparência do portador da força do destino. Freddy não entende porque foi deixado por Ai amarrado à uma árvore no parque; o Husky Siberiano Freezer aparece e, sombrio, assusta o pequeno cão dizendo que os humanos são instáveis, que sua dona o abandonou, que ele espere o tempo que quiser, mas ela não voltará. Logo depois, Freddy tem uma visão: milhares de cães clamam por sua ajuda, enquanto a Árvore da Sorte está queimando. Ele ouve a voz de Ai dizendo que o único que pode salvar a Árvore é o lendário Freddy; Freddy desperta da alucinação gritando que não é nenhum cachorrinho lendário.

O Herói até pode retornar à sua vida comum, mas uma série de indicações de força crescente deixará claro que a convocação não pode ser recusada. Ai, que tinha deixado Freddy preso à uma árvore no parque, retorna para buscá-lo e as coisas parecem que voltam ao normal; ela até mesmo leva Freddy para um piquenique no campo, num dia ensolarado, mas logo a neblina que escurece os corações humanos volta a influenciar a menina, que o põe para fora de casa.

O destino transferiu o centro de gravidade do seio da sociedade para uma região desconhecida, onde seres estranhos e tormentos indescritíveis se apresentam — uma terra distante, uma floresta, um reino subterrâneo, a parte inferior das ondas, a parte superior do céu, uma ilha secreta, o topo de uma montanha ou mesmo um profundo estado onírico (o lugar onde está a moribunda Árvore da Sorte e para onde Freddy terá que ir).
 

2. A recusa do chamado

Nada melhor do que as

refeições em horário certo...Por medo ou indiferença, o Herói pode recusar a aventura, por não querer renunciar àquilo que considera de interesse próprio, não querendo uma modificação de seu atual status quo. Então, o Herói deverá padecer de algum sofrimento até que finalmente aceite o chamado ou o recuse definitivamente. Durante a noite, dormindo com Ai, Freddy tem mais uma visão dos cães implorando por sua ajuda e, novamente, repete que não é o cachorrinho lendário. Somente quando Ai aparece na visão pedindo que Freddy a ajude, pois não está conseguindo lutar contra o que está sentido — o desprezo por Freddy — é que ele diz que vai tentar se transformar no "verdadeiro Freddy" a fim de salvar Ai. Mais tarde, depois de salvar dezenas de cães de um canil-prisão, ele vê seu amigo Dom Coro escapar da morte e só então, definitivamente, diz que vai se tornar Freddy, O Cãozinho Lendário.
 

3. O auxílio sobrenatural

BernardoO primeiro encontro daquele que responde ao chamado se dá com uma figura protetora (com frequência um ancião ou anciã) que fornecerá amuletos que o protejam contra as forças que ele estará prestes a deparar-se. O Pastor Alemão Eiji procura Freddy e diz que ele é o lendário cãozinho e que só ele pode salvar a Árvore da Sorte. Freddy aceita a tarefa e decide procurar, junto com Dach (Dachshund), o velho e sábio Bernardo (São-bernardo), pois este já havia dito da primeira vez que se encontraram que Freddy, em breve, teria uma missão a cumprir. Bernardo tem a Pedra Protetora, que é destinada para o Cãozinhoi Lendário. Dom CoroDom Coro procura um sábio cão eremita, que vive numa montanha para pedir-lhe conselhos — ele quer saber como salvar seu "papai" Panther. O sábio (após ser subornado com algumas guloseimas para cachorros) diz que a Árvore da Sorte pode realizar qualquer tipo de desejo e que a chave para achá-la está com Freddy.

O ajudante sobrenatural frequentemente assume a forma masculina. Nos contos de fada pode ser algum ser que habita a floresta, algum mágico, eremita, pastor ou ferreiro, que aparece para fornecer os amuletos e o conselho de que o Herói precisará. O Herói para quem este tipo de auxiliar aparece é, tipicamente, aquele que atendeu ao chamado.  Através de Freddy, Dom Coro fica sabendo de Bernardo, o ancião, e vai até ele; se fazendo passar pelo cãozinho lendário, Coro recebe a Pedra Protetora. Quando Freddy e Dach chegam até Bernardo, Dom Coro (Buldogue) já partiu com a Pedra Protetora destinada ao cãozinho lendário e o ancião não pode repetir as instruções de como achar a Árvore, pois está muito ferido; antes, o São-bernardo aconselha o pequeno Buldogue Francês. Freddy e Dach partem novamente e alcançam o capanga de Dom Coro, Noppe (Bull Terrier), arrancando dele a direção que devem seguir.

 

4. A passagem pelo primeiro limiar

Seguindo em sua jornada, o Herói precisa agora passar do mundo comum para o mundo desconhecido; além destes limites, estão as trevas e o perigo. A pessoa comum está satisfeita em permanecer no interior dos limites; o Herói tem todo o direito de temer o primeiro passo na direção do inexplorado. Freddy e Dach entram na Floresta da Morte; tanto um, como o outro estão apavorados.

Muitas vezes, devem ser guiados e controlados como crianças. Dach havia dito a Freddy, pouco antes, que ele era um cachorro mimado e chorão: "cada vez que acontece alguma coisa você não sabe o que fazer e começa a choramingar. Controle suas emoções. Barriga para dentro e caminhe com mais elegância." Para não se perderem um do outro, Dach sugere que Freddy segure em seu rabinho.

As mitologias folclóricas povoam com velhacas e perigosas presenças todos os locais desertos fora das vias normais da cidade. Abutres e uma voz velhaca surgem para advertir sobre o perigo mortal de se atravessar aquela floresta — um veado se transforma em um punhado de ossos tentando.

O Herói deve enfrentar o guardião do limiar. Dom Coro, à frente de Freddy e Dach, está atravessando a Floresta da Morte, quando é atacado por um enorme urso; ele perde a Pedra Protetora que carregava no pescoço (pela segunda vez) e cai no chão, ferido. Freddy e Dach alcançam Dom Coro e um enorme urso, que se apresenta como o Guardião da Floresta da Morte. Freddy enfrenta o Guardião, dizendo que Dom Coro é seu amigo, seu companheiro, e sempre o será, não importa o que acontecer. O urso reafirma que vai matar os três e ataca novamente; Coro, até então caído no chão, mas tendo ouvido as palavras de amizade de Freddy, levanta-se para defendê-los. Dom Coro protege com seu corpo Freddy e Dach do ataque do urso. Uma luz forte, brilhante, ilumina os três e o Guardião vira um monte de ossos; o caminho agora está livre.

As regiões do desconhecido (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha etc) são campos livres para a projeção de conteúdos inconscientes. Freddy e Dach estão apavorados e decidem desistir e retornar para casa. Mas no caminho de volta (ainda dentro da floresta), deparam-se com uma cabana abandonada e dentro dela, 4 filhotinhos presos e chorando, enquanto a mãe deles não é mais nada do que um monte de ossos em sua casinha. Freddy os liberta (e eles também viram esqueletos) e revisa sua decisão de voltar para sua Ai; ele precisa continuar.
 

5. O ventre da baleia

A ideia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero, ou ventre da baleia. O Herói, em lugar de conquistar ou aplacar a força do limiar, é jogado no desconhecido, dando a impressão de que morreu. Freddy, agora com a Pedra Protetora, e Dach seguem por uma passagem estreita que os levará até a Árvore da Sorte e acabam caindo, caindo, caindo... será que morreram? (Dom Coro, antes de entrar na Floresta da Morte, já havia ido de encontro com a morte certa caindo em um precipício por causa dos cães policiais que o estavam perseguindo).

Na verdade, ele é transformado, ele renasce, e agora sim está pronto para os desafios à sua frente. Corresponde à entrada do fiel em um templo; sua natureza secular permanece lá fora; uma vez dentro, pode-se dizer que morreu para a temporalidade e retornou ao Útero do Mundo, Centro do Mundo, Paraíso Terrestre. Freddy e Dach sobrevivem à queda e seguem adiante caminhando em um deserto, uma paisagem desoladora. (Dom Coro sobrevive à queda, mas é aí que perde a Pedra pela primeira vez — e ela acaba na patas de Freddy e Dach; muito ferido, se arrasta para uma caverna escura, onde encontra uma fonte de água quente relaxante. Ainda assim, precisa da Pedra para curar seus ferimentos e continuar sua "jornada"; Noppe — que estava viajando com Freddy e Dach — a rouba e a leva para o Chefinho, que se cura e segue para a Floresta da Morte onde enfrenta o urso Guardião.)
 

A INICIAÇÃO
 

1. O caminho de provas

Tendo cruzado o limiar, o Herói caminha por uma paisagem onírica povoada por formas curiosamente fluídas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de provas. Freddy e Dach continuam caminhando com muita dificuldade naquela paisagem desértica, que mais parece um pesadelo. Começa uma violenta tempestade de areia; Dach desiste. Dom Coro, junto com Noppe e Kowalski (Weimaraner), também está atravessando o deserto.

Ele é auxiliado, de forma encoberta, pelo conselho, pelos amuletos e pelos agentes secretos do auxiliar sobrenatural que havia encontrado antes de penetrar nesta região. Ou talvez, ele aqui descubra, pela primeira vez, que existe um poder benigno que o auxilia em sua passagem. A Pedra Protetora brilha azul em seu pescoço. Sua dona Ai e alguns de seus amigos, Max (Boxer), Cocco (Cocker Spaniel Americano) e Ryoma (Tosa), aparecem para Freddy e o incentivam a continuar sua jornada.
 

2. O encontro com a deusa

A aventura última, quando todas as barreiras foram ultrapassadas e vencidas, costuma ser representada como um casamento místico da alma-herói triunfante com a Rainha-Deusa do Mundo.

3. A mulher como tentação

O casamento místico com a rainha-deusa do mundo representa o domínio do Herói sobre a vida e de tudo o que pode ser compreendido, é o teste final do talento de que o Herói é dotado para obter a benção do amor, que é a própria vida, aproveitada como invólucro a eternidade — pois a mulher é vida e o Herói, seu conhecedor e mestre. Quando o aventureiro é uma jovem, é ela que se mostra apropriada para tornar-se consorte de um imortal.
 

4. A sintonia com o pai

O filho cresceu o suficiente para conhecer o pai, se reconciliar com seu lado tirano e piedoso, conhecendo-se a si mesmo também.
 

5. Apoteose

O ego do Herói é desintegrado numa expansão de sua consciência, ele passa a ter uma visão maior das coisas, o que lhe permite vir a se sacrificar. Freddy encontra a Árvore da Sorte, mas não consegue alcançar o orifício onde deve colocar a Pedra Protetora; ele se queima várias vezes na lava fervente que escorre do tronco; até que Dom Coro chega e o ajuda. Dom Coro, o amigo que havia traído Freddy porque queria a Pedra para salvar seu amado dono, ao invés de roubá-la novamente, ajuda o pequeno Buldogue Francês a salvar a Árvore da Sorte (e portanto, a Natureza e a Humanidade), protegendo-o com seu corpo até que eles alcancem o orifício e Freddy consiga encaixar a Pedra Protetora — sacrificando assim sua própria vida.
 

6. A beção última

Onde o Herói comum teria um teste diante de si, o eleito não encontra nenhum empecilho e não comete erros. Ele enfrentou a morte, superou seu medo e agora ganha uma recompensa. A Árvore da Sorte está salva; a neblina escura desaparece, a Natureza e a Humanidade estão salvas.
 

O RETORNO
 

1. A recusa do retorno

O Herói deve retornar com o seu troféu transmutador da vida; ele deve iniciar o trabalho de trazer os símbolos da sabedoria de volta ao reino humano, onde a benção alcançada pode servir à renovação da comunidade, da nação, do planeta ou dos dez mil mundos. Mas esta responsabilidade frequentemente é recusada. O feito de Freddy tem um benifício imediato sobre o planeta; ele quer voltar para casa, para o mundo comum onde está sua amada dona Ai, e o faz sem problemas.
 

2. A fuga mágica

Se o Herói obteve seu troféu com a oposição de seu guardião ou se seu desejo de retornar para o mundo não agradar aos deuses ou demônios, o último estágio do ciclo mitólogico poderá ser uma fuga, frequentemente cômica, complicada por prodígios de obstrução e evasão mágicas, objetos deixados pelo Herói no caminho para falarem por ele e retardarem a perseguição.
 

3. O resgate com auxílio externo

Quando o Herói se recusa a voltar ou as tentativas de impedir que retorne com o troféu são bem sucedidas, ele pode ser resgatado de sua aventura sobrenatural por meio da assistência externa. Isto é, o mundo tem de ir ao seu encontro e recuperá-lo.  Resgatado, o Herói tem que penetrar outra vez, trazendo a benção obtida, na atmosfera há muito esquecida na qual os homens, que não passam de frações, imaginam ser completos. Ele tem de enfrentar a sociedade com seu elixir, que ameaça o ego e redime a vida, e recebe o choque do retorno, que vai de queixas razoáveis e duros ressentimentos à atitude de pessoas boas que dificilmente o compreendem.
 

4. A passagem pelo limiar do retorno

O Herói deve voltar para o mundo comum. Mas como ensinar de novo o que havia sido ensinado corretamente e aprendido de modo errôneo um milhão de vezes, ao longo dos milênios da mansa loucura da humanidade? Eis a última e difícil tarefa do Herói. O Herói que retorna, para completar sua aventura,  deve sobreviver ao impacto.
 

5. Senhor dos dois mundos

A liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos, de passar da perspectiva da aparição no tempo para a perspectiva do profundo causal e vice-versa é o talento do mestre.
 

6. Liberdade para viver
 


Fontes:

O Herói de Mil Faces - Joseph Campbell
Wikipédia - Português
Wikipedia - English

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